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Distrito Federal

“Perturbador”: os relatos de moradores de rua do DF nas noites frias do inverno

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Metrópoles percorreu a noite mais fria do início do inverno e ouviu relatos de quem não tem paredes e tetos para se proteger do clima gelado

Por Jade Abreu
A cerca de 500 metros da imponente Catedral de Brasília, João da Silva*, de 51 anos, abriga-se em um daqueles cobertores que só se vê nas ruas. Em meio ao tecido de fibra sintética, o morador em situação de rua tenta se proteger de uma madrugada em que a temperatura mínima atingiu 10°C, anunciando a chegada do inverno.
Metrópoles percorreu a noite mais fria do início da estação conhecida pelo clima gelado e ouviu relatos de quem não tem paredes e teto para se proteger. Naquela quinta-feira (22/6), a umidade do ar no Distrito Federal ficou entre 90% e 35%.
“O frio é muito forte, perturbador, congelante, mas o pior mesmo é o frio que vem de baixo”, declarou Silva. Ele dorme em uma barraca e equilibra o corpo de acordo com a intensidade em que a pele gela. “Eu fico de um lado; aí começa a fazer muito frio, viro para o outro. É assim a noite toda.” O sono oscila também no frio. “Eu durmo um pouco e já acordo tremendo, mas acho que essa noite será melhor, porque ganhei mais um cobertor.”
Silva contou que está nas ruas há cinco meses, após discutir com o patrão e não conseguir mais trabalhar. Até o ano passado, ele trabalhava na construção civil como pedreiro no Itapoã. A falta de ocupação impactou a renda e fez com que ele não tivesse onde morar. “Hoje é até mais difícil conseguir emprego. Ninguém contrata quem está na rua”, lamentou.
O homem ainda relatou que faz suas três principais refeições no Centro Pop e que tem conseguido no local alguns documentos e orientação para solicitar benefícios sociais, como o Bolsa Família.

Aniversário no frio

A virada de quinta para sexta-feira (23/6) também marcou a data em que Ana Sousa* completa seus 38 anos. Não havia vela a ser acendida – apenas um cigarro que, conforme a fumaça se dissipava, aquecia o corpo.
Como teto, apenas a marquise da Biblioteca Nacional. O prédio construído para armazenar livros em seu interior tem, na área externa, pessoas dormindo ao relento. “Uso aqui papelão, esfrego a perna, e a gente fica junto”, disse, em referência ao companheiro Paulo Ferreira*, da mesma idade.
“Nesse frio, o joelho incha como se tivesse uma bala alojada”, descreveu Ferreira. Os dois contaram que têm família no DF, mas não moram juntos, já que consomem drogas nas ruas.

“Dói nos ossos”

Deitado em meio às cobertas, Deraldo de Castro, 54 anos, disse que não consegue dormir. “O frio dói nos ossos.” Ele contou que passa as madrugadas em claro e só pega no sono quando o sol começa a aparecer. Há sete anos na rua, Deraldo passou cinco em São Paulo, onde nasceu. Ele contou que já teve como “endereço” as calçadas da Praça da Sé, na capital paulista. “Para ser bem sincero, o que me faz aguentar o frio é o álcool.” O homem tem apenas 95% da visão de um olho. Aos 23 anos, uma teníase – doença causada pelo verme tênia – danificou os nervos ópticos e prejudicou sua capacidade de enxergar. Ele se abriga em meio a outras pessoas, porque, segundo Deraldo, vítima de solitária, a pior parte de morar nas ruas é a solidão. José Ribeiro*, 37 anos, disse já ter perdido tudo nas ruas, menos os remédios adquiridos no acompanhamento do Centro de Atenção Psicossocial (Caps). “Eu ando com essa sacola e tomo todos.” Nas embalagens, há medicamentos para depressão, ansiedade e outras doenças que afetam a saúde mental. Ele cobre o rosto todo, como um esquimó, e carrega os comprimidos.

Dificuldade de vagas

De acordo com o último levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, há mais 7 mil pessoas vivendo nessa situação na capital do país. O número coloca Brasília entre as cidades brasileiras com a maior população nesta condição, ocupando o quinto lugar no ranking nacional. Os dados referem-se a fevereiro deste ano. Apesar do número, há apenas 2.032 vagas nas 70 unidades de acolhimento institucional destinadas para a população em situação de vulnerabilidade social. Elas ofertam cinco refeições aos acolhidos. As informações são da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). Diante do déficit, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) enviou, em março deste ano, uma recomendação à Sedes para a instalação de novos Centros Pop no Distrito Federal, com prioridade para o Plano Piloto.


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